Meu Bento inesquecível por Fernando Rozano

Guri de sete anos nada entende de turfe. Pelo menos não em 1961. Em meu jeito de guri, era muito mais que turfista: rivalizava com Vergara Marques na narração das corridas. Ah, rivalizava mesmo. E as minhas narrações eram muito mais emocionantes, os páreos mais disputados, e o Vergara ficava na poeira da raia do Cristal. Em último! Bom, isso é mesmo verdade. Colecionador de bolinhas de gude coloridas, um dia qualquer da minha infância dei nome a elas. De cavalos. Os nomes vinham do meu pai, o Mário Rossano, quando falava com a mãe, do meu avô Dr. Jardelino Driesch e dos amigos que iam lá em casa. E o batismo acontecia: El Gustavo, Ouropombo, Ourodá, Lord Chanel, Ouroduplo, Estensoro, Zago e outros tantos que não lembro mais. Não recordo se esses cavalos estavam em 61 no Cristal, alguns deles vindos do saudoso Moinhos de Vento. Posso ter misturado os anos, pois continuei “narrando” até os dez anos. E também não ligava para a época em que haviam estado nas pistas. Se gostava do nome, escolhia uma bolinha e já estava inscrito para algum páreo. Uma tardia confissão: eu gostava mesmo dos cavalos da tradicional blusa Ouro, manchas pretas. E fantasiava com uma que nunca meus olhos viram: Salmon, mangas pretas. E no tapete na sala principal de nossa casa da Quintino Bocaiúva estava a pista do meu hipódromo. Entre as pernas da mesa e das cadeiras, fazia uma ginástica e tanto para que os meus programas acontecessem. Por óbvio, ganhavam as bolinhas que mais gostava. E quase sempre de atropelada, após disputa acirrada pela ponta. E o jóquei, nem preciso dizer quem era o grande campeão.

Não me ligava muito em datas, o primeiro ano do então primário se aproximava do fim, se é que já não havia encerrado o ano letivo. Novembro, mês em que o calor ia se aproximando devagar, para começar em dezembro com força. Novembro de 1961, data da maior prova do turfe gaúcho, o Grande Prêmio Bento Gonçalves. O pai montava Lord Chanel. Saiu de casa dizendo que venceria. Ficamos todos em volta do rádio. Todos, não. Fui para baixo da mesa, narrar o meu Bento. De repente, um grito. Dois, ou três, não sei quantos, por mais que me esforce, minha memória não alcança. Sei apenas que minha mãe gritava “o Mário ganhou o Bento”. Pouco depois, levantei e fui junto ao rádio. O silêncio…e a voz da mãe: “Foi desclassificado”. Não sabia bem o que significava, mas pelos olhos vermelhos dela algo grave acontecera. Comecei a chorar também.

Mais tarde, o pai chegou. Mais silêncio, cabeça baixa. Derrota, longa suspensão. Ninguém pode imaginar o que foram aqueles dias e meses depois da desclassificação de Lord Chanel em favor de Argonaço. Ninguém pode sequer supor como vivemos aquele tempo semeado de injustiças. Ninguém pode amenizar o que ouvimos e que até hoje está bem presente. Ninguém. Somente a nossa família e alguns amigos mais próximos.

Hoje, passados mais de 50 anos, a convicção da injusta decisão da Comissão de Corridas da época ficou firmada ao longo desse tempo, quando o pai falava a respeito, e jamais, em qualquer circunstância, mudou o seu depoimento. Foi sempre o mesmo. Até o quando o encontrei caído após sofrer AVC, para mantê-lo lúcido, enquanto esperava pelo socorro, perguntei sobre a ida ao Rio de Janeiro em 52 e sobre o Bento de 61. A história foi repetida tal como contara 50 anos antes para quem quisesse ouvi-lo.

O pai partiu e nunca soube que antes de o Bento ser corrido de verdade, eu havia narrado o meu Bento e ele e Lord Chanel cruzaram o disco de chegada em primeiro. No hipódromo dos meus sete anos, nenhuma comissão de corridas desclassificou Lord Chanel. Não vi o que seria o meu Bento inesquecível. Naquela tarde, narrei a vitória de Mário Rossano.

*Jornalista, escritor e editor