Três Bentos de Ouro por Marco A. de Oliveira

Uma sequência de três Bentos extemporâneos marcou particularmente a trajetória da magna prova arenática do País.

Isto porque – tradicionalmente – esta máxima do turfe rio-grandense remonta prioritariamente ao mês de novembro. Não que dezembro já não tenha sido escolhido para sua realização de forma especial, basta recordar o último Bento no Hipódromo de Moinhos de Vento (07), quando Estensoro (Estoc e Perfidia) passeou, e na inauguração do Cristal (06 de dezembro), quando novamente Antônio Ricardo estava a bordo, desta vez com o arenático argentino Chaval (Tudor Castle e Damsel, por Rustom Pasha) em pista muito pesada.

Em 1972, num domingo dia 1º, ocorreu fato ímpar na trajetória do GP Bento Gonçalves, o propalado Bento de outubro. Este esteve ameaçado de não ser realizado. Questionava-se na época a troca de sua data em função da proximidade de outras provas magnas brasileiras. Por exemplo: o GP Brasil (em agosto), o GP São Paulo – então deslocado de maio para setembro em função da comemoração do Sesquicentenário da Independência – e ainda mais o GP Paraná, em dezembro.

Em termos internacionais, o Pellegrini – então corrido em Palermo – concentrava atenções em novembro. O então Presidente do Jockey Club do Rio Grande do Sul era o saudoso Olinto Borda Streb, defensor da idéia de cambiar o Bento para março do ano seguinte. Seria inviável monetariamente correr assim um Bento na época tradicional e outro já no 1º trimestre do ano vindouro. Contudo – em uníssono – levantaram-se os defensores do tradicional do Bento novembrino. Salutar levante, pois eis que houve um empenho total para que o Bento saísse – inclusive com a anuência do próprio Presidente sensibilizado com a ação – a qualquer preço e até mesmo antes do mês tradicional. Assim, para encurtar o assunto, foi corrido pela primeira e única vez o Bento antecipado de outubro e – sem perder o pique – preparou-se um grande Bento para março de 1973. Estava eu – com apenas dezesseis anos – trabalhando pela Rádio Itaí junto à equipe do Vergara Marques, como porta-voz das apregoações, rateios e retrospecto, em 1972. O Bento atrasou – e muito –, o hipódromo estava lotado e a venda manual de pules não dava conta das filas imensas para as apostas, contribuindo para que fosse corrido já à noite. Uma vitória fácil do argentino Locomotor (Lacydon e Retórica), conduzido pelo bridão chileno Sergio Vera, à frente de um lote valorizado pelos exitosos locais Tragi-Farsa, El Mineral e Lexikon (recente vencedor do Protetora pela segunda vez) e com a presença de nomes de proa do turfe nacional tais como o gaúcho – radicado na Gávea e flamante vencedor do GP Brasil – Fenomenal, o pequeno guerreiro Zurkis, o destacado Arpegio e o pupilo de Milton Signoretti, Fuzué. Da Argentina fora importado o zaino negro Zuncho (Make Tracks), já com vitória clássica em Cidade Jardim. Enfim um campo de encher os olhos num GP que esteve em vias de não ser disputado. Sucesso completo, graças à vontade e trabalho de alguns e à conquista de patrocínios providenciais.

O biênio 1973/74 – quando tivemos o Bento corrido em março pelas primeiras vezes – foi marcado por competidores ainda mais qualificados. Talvez os melhores campos internacionais daquela década. No primeiro (25.03.1973), o Bento recebia como convidado mor o campeão do Pellegrini-1972, o robusto alazão Chupito (Electrodo e Chimpá, por Periquito). Em serena direção de Hugo Rabanito López, Chupito rebocou sem esforço os qualificados adversários Heinz (ARG), Oldak (PR), Keenly (ARG), El Guarani (RS), Clavecin (ARG), Yakei (SP), Zuncho (ARG), Mensajero (URG), Tragi-Farsa (RS), Joriba (URG), El Mineral (RS), Saltanella (ARG), Snow Hovel (ARG), Kurós (RS) e Quarana (SP). Esta última ponteou a carreira até a entrada da reta, sempre em luta com Zuncho, até que Chupito passou à liderança e abriu vantagem sem jamais ser fustigado até o disco. Em 1974 (31 de março), embora não tivéssemos qual o ano anterior um ganhador de Pellegrini, presenciamos concorrentes que traduziam a nata dos corredores em pistas de areia argentinas e uruguaias. O favorito do referido Bento era o argentino Respingo (Rigoló) que, infelizmente, sentiu no percurso; mas não havia grande destaque neste favoritismo. Nomes como o do tordilho Good Bloke (Fresh Air e Good Hope), treinado pelo inesquecível Alfonso L. Salvati, do alazão Loisir (Dark Ridge) e do zaino Dioico (Brecher), além de Keenly (Montparnasse) – em sua segunda tentativa – reforçavam ainda mais o naipe argentino. Do Uruguai vinham com maior destaque Naniño (Bagdad e Chambolle), Esbirro (Imaginado), Tio Pincho (Montespán) e a potranca Quimia (Snow Cry). Entre os representantes nacionais, destaque para o tordilho Don Tibagí (Don Bolinha) e a gauchinha Tragi-Farsa (El Tronío). O desenrolar da prova foi belíssimo com várias alternativas até que, no promediar da reta final atracaram-se, literalmente, Good Bloke – levado por fora por Justo “Loco” Torres – e Naniño, com Roberto Espino. Respectivamente com as mantas 3 e 9, o tordilho negro argentino e o zaino uruguaio disputaram palmo a palmo os 400 metros finais. A liça tornou-se tão emocionantemente renhida que seus jóqueis passaram a trocar fustaços de parte à parte, num flagrante delito de raia. Ao cruzarem o disco, praticamente igualados e batendo um recorde que perdurava desde 1961 (Estupenda), foi necessária a intervenção do “photo-chart” que revelou escassa diferença pró-oriental. Porém, de certa forma surpreendente, sobreveio sua desclassificação em favor de Good Bloke. Dizem que, ao contrário de muitas especulações, não houve indignação por parte de toda a delegação maroñense. Até mesmo o proprietário de Naniño (titular do stud Las Armas) não teria se julgado prejudicado, reconhecendo que Espino começara a aplicação de partidos. O que isentaria a Comissão de Corridas, então presidida pelo saudoso Prof. Mário Êgas Câmara. O fato é que a opinião ficou bem dividida entre os presentes, o que se torna comum onde há grande volume de apostas e possíveis desvios de conduta.

Estamos às vésperas de mais um Bento – 106º para ser mais exato – com a expectativa de outro grande momento com um campo apreciável e sem um favoritismo destacado. Isso é bom, afinal a barbada cantada antes da hora tira um pouco do gosto da especulação. Contudo – sem sombra de dúvidas – dificilmente teremos novamente uma sequência tão qualificada como a do triênio 1972/73/74, coincidentemente vencida por três egressos do criatório argentino.

*Historiador, ex-narrador de corridas oficial do Jockey Club do Rio Grande do Sul